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Quem tem medo do escuro?:
Esse site foi feito para ser uma mistura de “Histórias que o Povo Conta” e “Senta quer lá vem a história”. Isso porque serão histórias do extraordinário, de suspense, etc, só que em capítulos diários. Cada dia vou postar mais um pedaço até que a obra esteja completa. Será uma história de suspense, fantasia, ficção... Se você tiver a curiosidade suficiente para acompanhar... ahh, não se assuste, não serão histórias de terror...
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Ao pé da fogueira:
Luciano Marques
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Quinta-feira, Março 31, 2005
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A Passagem
Capítulo 5
Aline estava sentada. Não conseguia se levantar. Na verdade, mal conseguia dizer alguma coisa, pois sua boca estava escancarada como as costelas de uma carcaça em um sertão escaldante. Nando e Roberto estavam na mesma situação.
Depois de estarem em um porão completamente escuro, os três agora presenciavam uma paisagem horrenda e ao mesmo tempo deslumbrante. O céu se desdobrava em cores púrpura, cinza e vermelho escuro. Não havia lua, por isso as nuvens carregadas estavam quase imperceptíveis.
- Eu não queria desviar a atenção de vocês - disse Nando -, mas olhem para baixo...
Eles estavam tão encantados com o céu que nem sequer tinham olhado para baixo. Havia lá uma paisagem extremamente diferente de tudo que aqueles olhos tinham presenciado até então. No horizonte, as silhuetas das montanhas pareciam se mexer lentamente. A grama onde estavam sentados era áspera, de um verde muito escuro, e o chão sob ela aparentava ser mais macio que deveria. À direita eles puderam ver árvores completamente disformes, com raízes crescendo para cima e galhos nervosamente tortos e retorcidos. O caule era gordo e oscilava às vezes, como se estivesse respirando.
Por um instante os jovens imaginaram que estavam sonhando. Nando chegou a pensar que tudo aquilo não passava de uma alucinação, mas declinou dessa posição quando notou que os primos estavam vendo e comentando das mesmas coisas absurdas. Além das montanhas, da grama e das árvores, ele viu um gigantesco pássaro voar alto, arrastando um pouco de nuvem com sua cauda. Aquilo parecia impossível, mas, diante do que já tinha visto, do que poderia duvidar?
Finalmente os primos resolveram se levantar. Desequilibraram-se um pouco e sentiram dificuldade de respirar. O ar naquele lugar era doce, quente e um pouco ácido. Aline chegou a tossir e ficou com medo de sua asma. Era assustador respirar algo tão diferente.
Mal ficaram de pé, ouviram novamente a voz que pediu a palavra de cada um ainda quando estavam no porão. Desta vez, não havia eco e parecia estar vindo do lado esquerdo. Do canto onde haviam pedras tão pontudas que poderiam cortar o tempo.
- Já que disso aqui nada contarão, me respondam agora, pois jamais aceito não. De onde vem, o que querem... e onde que pensam que vão?
Se os jovens estavam espantados com o que estavam vendo, ficaram boquiabertos quando olharam para a esquerda e enxergaram a criatura que falava. Não era nada, nem de longe, parecido com o que eles já tinham visto até aquele dia...
continua...
contado por Luciano Marques
, às 12:08 AM
Segunda-feira, Março 28, 2005
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A Passagem
Capítulo 3
Tanto Nando como seus primos estavam boquiabertos com o que tinham encontrado, um porão completamente vazio. Por um instante, pensaram que o bisa estava caducando ou brincando com todos por longos anos. Porém, Aline levantou o máximo que pôde o lampião e avistou ao fundo uma abertura na parede. Alguns tijolos foram retirados e a parede tinha um buraco de mais ou menos um metro e meio de largura. O estranho é que o buraco foi feito na altura da cabeça, como se tivesse sido feito apenas para se observar o que estava do outro lado, e não para dar acesso.
- Surpresa! - disse Roberto, apontando um interruptor que achara no fim da escada.
Uma luz se acendeu logo acima do portal da escada, mas não iluminou muita coisa no porão. A lâmpada estava coberta por uma camada de poeira e gordura que deixava escapar apenas uma tênue luz amarelada.
Os três se aproximaram da parede mais ao fundo do porão e ficaram receosos em olhar para o buraco. Aquilo poderia dar acesso a qualquer coisa do outro lado e o medo bateu mais uma vez.
- Vocês têm certeza de que querem fazer isso? - perguntou Aline. - Ainda está em tempo de voltar.
- De jeito nenhum! - afirmou Roberto. - Já que estamos aqui, vamos até o fim. Me empresta o lampião, deixa eu tentar iluminar lá dentro.
Depois que Roberto tomou posse do lampião, estendeu o braço lentamente em direção do buraco. O movimento foi tão lento que seus primos trincaram os dentes de tensão. Aline estava grudada no braço de Roberto e Nando se agarrava ao da prima.
- Não dá para ver nada... - comentou Roberto.
- Como não? - perguntaram os primos em coro.
- Sei lá. Dêem uma olhada aqui - disse, e esticou o braço mais para dentro do buraco.
A escuridão era tamanha depois da parede que nem mesmo a luz do lampião conseguia iluminar. Aquilo era estranho, mas eles sabiam que o instrumento que usavam não era o mais indicado.
- Se eu soubesse teria trazido uma lanterna - disse Aline. - Para iluminar isso aí só uma luz direta.
- O que vamos fazer agora? - indagou Roberto.
- Alguém vai ter que entrar lá e iluminar direito - rebateu Aline imediatamente.
- Eu não entro aí só - respondeu Roberto na mesma velocidade.
- Nem eu - Nando apressou-se em dizer quando viu os amigos olhando para ele. - Vamos fazer assim, nosso bisa pediu que nós entrássemos aqui, então, vamos os três de uma vez só. Certo?!
Ninguém gostou muito da idéia, muito pelo contrário. Um incômodo desceu a espinha e se alojou na base do estômago só de pensar na idéia de pular aquele buraco e ir para o outro lado.
- Essa parede foi construída aqui por algum motivo... - observou Aline.
- E esse buraco também foi feito nela por alguma razão - rebateu Nando. - Deixem de frescura vocês dois. Vamos. Aline, ilumine aqui que eu vou primeiro.
Antes de ir em direção ao buraco, apoiando o pé nas costas do primo, Nando olhou para Aline e lhe dirigiu a palavra de forma séria.
- Logo depois que eu pular, vocês também pulam! Ouviram? Não ousem me deixar sozinho lá!
Aline apenas acenou positivamente com a cabeça e ergueu a lamparina para iluminar o buraco. Nando se apoiou na parede e subiu nas costas do amigo que já estava agachado. A abertura não estava muito alta, mas necessitava de algum esforço para ser alcançada. Em segundos Nando passou por ela e pediu para que Aline iluminasse mais de perto. Não dava para ver o chão direito.
- Parece ser alto...
- Espera, segura você a lamparina.
Depois de receber o lampião, Nando abaixou o braço o máximo que conseguiu e pôde finalmente ver o chão. O nível era mais baixo que do outro lado, no porão, mas ele poderia chegar lá sem grandes problemas. Saltou depois de proteger o lampião com os braços, sacudiu a poeira da roupa e olhou para cima. A abertura ficava a cerca de dois metros do chão.
- Tudo bem... - disse Nando, que se assustou com o eco. - Podem descer. Eu ajudo vocês!
Nando não quis olhar para trás, mesmo depois do eco. Ele preferiu erguer o lampião para iluminar o buraco e esperar os amigos. Longos segundos se passaram e seu receio de que eles desistiriam aumentou. A sensação de estar ali sozinho era horrível. A escuridão as suas costas o fazia imaginar mil coisas. Como se algo pudesse aparecer correndo de repente. Sons imaginários começaram a ecoar onde estava e um frio sepulcral lhe correu as costelas. Suas pernas voltaram a tremer e ele resmungou para os primos.
- O que vocês estão esperando?!
Nenhuma resposta. Mais alguns segundos se passaram até que Aline enfiasse a cabeça pela abertura em um movimento rápido.
- Bu!
- Não tem graça nenhuma!
Ela sorriu alegremente e o gesto até quebraria aquela tensão, se não fosse o eco. As gargalhadas de Aline ecoaram repetidas vezes na escuridão, como a risadinha de uma criança atrevida. Nas últimas repetições, nem mais parecia que tinha sido ela a sorrir. A expressão dos dois ficou séria novamente.
- Anda logo Aline! Desce, eu te ajudo.
Escorregando pela parede, Aline desceu com a ajuda de Nando. Assim como o primo, resolveu não olhar muito para trás. Esperaria Roberto. Este desceu logo em seguida, sem muitas dificuldades. Era o mais alto dos três e pular aquele buraco era fichinha.
Foi Aline que assumiu novamente o posto de portadora do lampião. Conhecia os primos e não queria dar sopa para que algum deles sumisse com a luz e a assustasse. Todos viraram ao mesmo tempo e colaram suas costas na parede fria. Era incrível, mas ainda não dava para ver nada. A chama do lampião iluminava apenas um raio de dois, no máximo três metros e ali, por enquanto, havia apenas escuridão.
- Será possível que esse porão é tão grande assim? - questionou Roberto.
- Não estamos vendo nada, - disse Nando - pode ser que ele seja pequeno e termine logo ali.
- Não escutou o eco? - apontou Aline. - Isso aqui deve ser enorme. Nosso bisa falava muito dos túneis que cavaram embaixo de Abadia dos Dourados.
- A caça aos diamantes! - mencionou Nando.
- É. Parece que o bisa também fez o seu túnel.
- O que faremos agora? - sussurrou Aline. Não me diga que...
Roberto não deixou ela continuar. Rapidamente pegou seu braço e seguiu em frente. - Vamos logo. Já que estamos na chuva...
Os três caminharam cuidadosamente, passo atrás de passo. A respiração estava tão ofegante que podia ser ouvida por eles. E assim continuaram por longos metros. Tanto que já estavam se perguntando quando iriam encontrar alguma coisa.
De repente, uma voz surgiu na escuridão, potente como um estrondo.
- Fiquem onde estão! Se querem continuar adiante, terão de me responder se estão dispostos a me dar o que vocês têm de mais importante...
Os primos se agarraram uns aos outros, tremendo. Aline enfiou o rosto no ombro de Nando e este, segundos depois, notou que havia algo de errado. A voz que ouviram não produziu eco algum...
continua...
contado por Luciano Marques
, às 8:16 PM
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