Quem tem medo do escuro?: Esse site foi feito para ser uma mistura de “Histórias que o Povo Conta” e “Senta quer lá vem a história”. Isso porque serão histórias do extraordinário, de suspense, etc, só que em capítulos diários. Cada dia vou postar mais um pedaço até que a obra esteja completa. Será uma história de suspense, fantasia, ficção... Se você tiver a curiosidade suficiente para acompanhar... ahh, não se assuste, não serão histórias de terror...

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Ao pé da fogueira:
Luciano Marques
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Terça-feira, Abril 26, 2005 :::

Em breve o sétimo capítulo

Devido alguns problemas técnicos (parece aquele antigo aviso da TV quando saia do ar) fiquei sem colocar mais episódios aqui.
Em breve o sétimo capítulo estará no site.
Grato


contado por Luciano Marques , às 12:38 PM


Domingo, Abril 10, 2005 :::

A Passagem

Capítulo 6



Se os jovens já estavam com a impressão de que estavam sonhando, ver aquela criatura atenuava ainda mais a situação. Não conseguiram definir bem, no início acharam que eram três aves juntas, uma ao lado da outra. Segundos depois, porém, perceberam que a criatura era uma espécie de coruja, enorme, com três cabeças. Todas fitando-os de forma tenebrosa. As penas eram de um negro azulado, os bicos estavam gastos e os olhos amarelos extremamente profundos. A cabeça da direita tinha um estranho tom de sépia entre as penas escuras e a da esquerda, penas coloridas.
A cabeça que falava com o grupo era a do meio. A cada palavra, um arrepio dos primos.
- Ora, ora, quem diria. Não pensei que chegariam até aqui. Não têm idade o suficiente para assumirem a palavra, mas assim o fizeram...
Nando, Aline e Roberto tentavam dizer algum coisa, mas o máximo que conseguiam era engolir seco. Aquilo era um coruja enorme, maior que um cachorro, e tinha três cabeças! Pior, uma delas estava falando com eles.
- Agora que estão aqui, para onde vão? Vamos, me diga, não me deixem aqui falando em vão.
Nando finalmente criou coragem de falar. - Quem é você?
- Você quem? - disse a cabeça da esquerda com sua voz nebulosa, assustando ainda mais os jovens.
- Ele perguntou a mim - falou a do meio.
- Por que ele não pode ter falado comigo? - comentou a terceira, à direita.
As três cabeças estavam olhando umas para as outras e as asas da criatura se abriram, mostrando uma enorme envergadura.
- Eu quis dizer quem são vocês - emendou Nando de olhos arregalados.
As três cabeças da enorme coruja olharam para o jovem de forma curiosa e fizeram uma pausa antes de falarem quase que ao mesmo tempo.
- Eu não tenho nome... Eu não gosto de dizer o meu... Eu tenho... mas, quer saber? Não vou dizer.
Os jovens estavam confusos. As três cabeças estavam falando, mas Roberto atravessou. - Então vamos fazer assim, você vai ser o um, o do meio dois e o da esquerda três. Já basta eu estar falando com um animal... agora essa indecisão.
- Hum... - resmungou o três. - Para mim tanto faz.
- Para mim também - disseram as outras duas em coro.
Aline, que até apenas observava, deu um passo à frente e encarou a coruja, por mais que aquilo lhe fizesse tremer de medo.
- Vocês três... podem nos responder, por favor, onde estamos?
- Usem a imaginação... - disse a um com sua voz grave, caindo em uma gargalhada tenebrosa, que era um misto de riso com pio.
- Vamos lá... - disse a jovem desanimada... - Já que vocês falam, não custa nada dar uma ajudazinha...
- Só posso dizer que vocês estão onde queriam estar... - apontou a três.
Enquanto Aline conversava com a coruja, Roberto observava a paisagem. Achou estranho aquela luminosidade alaranjada e não soube definir se era claro ou escuro.
- Vocês, corujas... - chamou Roberto. - Que horas são? É dia ou noite? Tentei achar o sol... não consegui...
- Aqui não é dia - disse a um, logo seguida pela dois -, nem noite.
- Nem dia nem noite... sei - comentou Nando fazendo careta.
De repente surgiu no céu o som de um estrondo. Aquilo chamou a atenção dos três, que olharam para o alto curiosos.
- Por falar em hora, chegou o momento de irem andando... - disseram as três cabeças ao mesmo tempo.
Quando os primos voltaram a atenção novamente para a coruja, ela havia sumido. Porém, a voz da terceira, a mais irritante e rabugenta delas, restou no lugar pos alguns segundos.
- Vão andando... e decidam por onde devem seguir. Não era para falar isso, mas vá lá... A da direita vai ao ontem, a do meio fica aqui e a da direita, quem pode saber?
Os jovens procuraram a coruja entre as pedras, mas não obtiveram resultado.
- Elas disseram para irmos andando... - comentou Nando.
- Elas não... foi a três que disse - lembrou Aline. - Aquela com as penas coloridas e voz funesta.
- É verdade - concordou. - Enfim, o que vamos fazer? Ir andando, como a três disse?
- Por que não? - indagou Roberto. - Já que estamos aqui, porque não damos uma explorada no lugar? O objetivo não era esse?
Os primos decidiram que o melhor a fazer era conhecer o lugar. Sabiam que aquilo não era normal. Não era noite nem dia, o céu tinha cores estranhas e uma coruja de três cabeças os recepcionaram. O que poderiam encontrar mais à frente?
Depois de caminhar por alguns minutos naquela estranha grama, os jovens ultrapassaram um setor onde o terreno era elevado e se depararam com um lugar que explicava as últimas palavras da coruja. O caminho se dividiu em três. A trilha da esquerda era de uma grama seca e mal cuidada. O caminho do meio era bem parecido com o que estavam e o da direita era acompanhado por flores lilás e verdes, todas com muitos espinhos.
- O que faremos agora? - perguntou Aline, olhando de forma indecisa para os três caminhos.


continua...


contado por Luciano Marques , às 7:45 PM


Terça-feira, Abril 05, 2005 :::

A Passagem

Capítulo 5



Aline estava sentada. Não conseguia se levantar. Na verdade, mal conseguia dizer alguma coisa, pois sua boca estava escancarada como as costelas de uma carcaça em um sertão escaldante. Nando e Roberto estavam na mesma situação.
Depois de estarem em um porão completamente escuro, os três agora presenciavam uma paisagem horrenda e ao mesmo tempo deslumbrante. O céu se desdobrava em cores púrpura, cinza e vermelho escuro. Não havia lua, por isso as nuvens carregadas estavam quase imperceptíveis.
- Eu não queria desviar a atenção de vocês - disse Nando -, mas olhem para baixo...
Eles estavam tão encantados com o céu que nem sequer tinham olhado para baixo. Havia lá uma paisagem extremamente diferente de tudo que aqueles olhos tinham presenciado até então. No horizonte, as silhuetas das montanhas pareciam se mexer lentamente. A grama onde estavam sentados era áspera, de um verde muito escuro, e o chão sob ela aparentava ser mais macio que deveria. À direita eles puderam ver árvores completamente disformes, com raízes crescendo para cima e galhos nervosamente tortos e retorcidos. O caule era gordo e oscilava às vezes, como se estivesse respirando.
Por um instante os jovens imaginaram que estavam sonhando. Nando chegou a pensar que tudo aquilo não passava de uma alucinação, mas declinou dessa posição quando notou que os primos estavam vendo e comentando das mesmas coisas absurdas. Além das montanhas, da grama e das árvores, ele viu um gigantesco pássaro voar alto, arrastando um pouco de nuvem com sua cauda. Aquilo parecia impossível, mas, diante do que já tinha visto, do que poderia duvidar?
Finalmente os primos resolveram se levantar. Desequilibraram-se um pouco e sentiram dificuldade de respirar. O ar naquele lugar era doce, quente e um pouco ácido. Aline chegou a tossir e ficou com medo de sua asma. Era assustador respirar algo tão diferente.
Mal ficaram de pé, ouviram novamente a voz que pediu a palavra de cada um ainda quando estavam no porão. Desta vez, não havia eco e parecia estar vindo do lado esquerdo. Do canto onde haviam pedras tão pontudas que poderiam cortar o tempo.
- Já que disso aqui nada contarão, me respondam agora, pois jamais aceito não. De onde vem, o que querem... e onde pensam que vão?
Se os jovens estavam espantados com o que estavam vendo, ficaram boquiabertos quando olharam para a esquerda e enxergaram a criatura que falava. Não era nada, nem de longe, parecido com o que eles já tinham visto até aquele dia...



continua...


contado por Luciano Marques , às 3:10 AM


Quinta-feira, Março 31, 2005 :::

A Passagem

Capítulo 4

Paralisado. Era assim que Nando estava. Tudo a sua volta estava escuro, mesmo com a iluminação do lampião, e com aquela voz que surgiu do nada o medo tomou conta de seu sistema nervoso. Já tinha ouvido falar de pessoas que travavam diante do perigo, mas não imaginava que era tão agonizante não poder mexer músculo algum. Porém, o comentário de seu primo o preocupou ainda mais.
- Gente, eu não estou conseguindo me mexer.
Os três estavam completamente paralisados. Demorou alguns segundos para que notassem isso. Não estavam podendo mexer seus músculos, mas não era por causa do medo. Algo ali os impedia de se movimentar.
- Ainda não me responderam - disse mais uma vez a voz que vinha do escuro.
Aline sentiu vontade de fazer xixi nas calças. Já era ruim o suficiente estar em um cômodo escuro e úmido, agora tinha de agüentar o pânico de saber que tinha alguém no breu que a observava e lhe dirigia a palavra de forma soturna.
- Me respondam uma coisa, - comentou Roberto - se não podemos nos mexer, porque estamos falando?
- Acho que precisamos nos preocupar com outra coisa - respondeu Nando. - Vocês se lembram do comentário do bisa?
Aline se recordou no mesmo instante. - Ele disse que só tinha conseguido ir até certo ponto em sua descoberta. Acho que agora entendi porque ele disse isso. Antes estava confuso.
- Ele realmente disse que não conseguiu passar desse ponto - lembrou Nando. - Quem é essa pessoa que está falando? Ele não pode ter ficado aqui dentro trancado...
- Estou perdendo a paciência - falou a voz mais uma vez. - Preciso saber de vocês, me dão o que vocês têm de mais importante ou voltem e não apareçam mais aqui.
- Meu Deus, o que esse cara quer? - sussurrou Roberto.
- O que temos de mais importante... - respondeu Aline. - Para mim, o que tenho de mais importante é a alma... eu não dou minha alma. Cruzes... Deus me livre.
- E se esse cara estiver se referindo a nossa vida? - questionou Nando. ¿ Se respondermos sim, podemos entregar nossas vidas na mão de alguma coisa... não sei não.
- Ou me dão o que de mais importante podem me dar, ou vão embora! - disse a voz, mostrando impaciência.
Aline sentiu seu sangue gelar. Mais uma vez se arrependeu de ter entrado naquele buraco escuro. ¿É o capeta e quer levar minha alma¿, ¿É o capeta e quer levar minha alma¿, repetiu para si diversas vezes.
Roberto era o mais quieto dos três. Passou aqueles longos segundos matutando sobre o que estava acontecendo. Aquilo tudo era muito maluco. Estavam em um lugar completamente escuro, algo paralisara seus músculos e a voz de alguém ou de alguma coisa estava pedindo algo muito esquisito. De repente, ele teve um estalo.
- Eu dou o que você quer! - disse Roberto de forma inesperada.
- Ei! Tá maluco? - rebateu Nando, desesperado.
- E eles também vão dar - emendou Roberto.
- Você está delirando de vez! - indignou-se Aline.
- Podem confiar em mim? Ei, você aí, nós vamos dar o que você quer.
- Mas... - tentou argumentar Aline.
- Quieta, prima - sussurrou Roberto e, logo em seguida, se dirigiu novamente para a estranha voz. - Ande, não era isso que queria? Estamos dando o que você pediu.
Depois de um temeroso silêncio, ouviu-se uma gargalhada seca. Nando engoliu seco, ainda estava nervoso e não conseguia entender porque o primo fizera aquilo.
- Seu maluco! O que deu a ele?
- Dei o que nosso bisa, infelizmente, não tem - respondeu Roberto.
- O que? - perguntou Aline. - Coragem?
Roberto sorriu. - Não, isso ele tem de sobra. Dei a nossa palavra. Era o que ele estava pedindo, seja lá quem ele for. Ele não estava se referindo a nós especificamente, estava falando do que o homem pode dar de mais importante.
- A sua palavra... - mencionou Aline em voz baixa.
- Um homem inteligente... Vejo que estão dispostos a me dar a palavra... - comentou a voz. - Agora quero saber... me dão a palavra que acreditarão no que vão ver e que não contarão às pessoas sobre nada que seus olhos vão presenciar?
Os primos ficaram sem respostas por um tempo. Não sabiam o que dizer.
- Prometem que jamais em suas vidas comentarão o que estão para ver?
Eles poderiam mentir, mas a situação estava tão estranha que sabiam, em seu íntimo, que teriam mesmo de dar a palavra para aquela coisa escondida no escuro.
- Eu dou minha palavra! - disse Roberto sem titubear.
Depois de pensar um pouco mais, Aline e Nando também responderam o mesmo. Tio Dorino lhes pedira expressamente que deveriam contar o que iriam ver, mas não estavam em posição de negociar. Não naquele instante.
Silêncio. A quietude daquele momento e a escuridão à volta deixou os garotos angustiados. Isso até a voz se pronunciar pela última vez.
- Estejam prontos...
De repente, o chão abriu abaixo dos pés de Nando, Aline e Roberto, engolindo os três. Como se fossem sugados por algo. O susto foi enorme e, se até ali as surpresas foram muitas, essa superou.

Quando os primos caíram sentados em um terreno macio, respiraram fundo e protegeram os olhos com os braços. Depois de ter passado muito tempo no escuro, a claridade os incomodou por um momento. Após se acostumarem à luz, não acreditaram no que viram.
- Nando... - disse Aline, boquiaberta. - Me belisca...


continua...


contado por Luciano Marques , às 12:08 AM


Segunda-feira, Março 28, 2005 :::

A Passagem

Capítulo 3



Tanto Nando como seus primos estavam boquiabertos com o que tinham encontrado, um porão completamente vazio. Por um instante, pensaram que o bisa estava caducando ou brincando com todos por longos anos. Porém, Aline levantou o máximo que pôde o lampião e avistou ao fundo uma abertura na parede. Alguns tijolos foram retirados e a parede tinha um buraco de mais ou menos um metro e meio de largura. O estranho é que o buraco foi feito na altura da cabeça, como se tivesse sido feito apenas para se observar o que estava do outro lado, e não para dar acesso.
- Surpresa! - disse Roberto, apontando um interruptor que achara no fim da escada.
Uma luz se acendeu logo acima do portal da escada, mas não iluminou muita coisa no porão. A lâmpada estava coberta por uma camada de poeira e gordura que deixava escapar apenas uma tênue luz amarelada.
Os três se aproximaram da parede mais ao fundo do porão e ficaram receosos em olhar para o buraco. Aquilo poderia dar acesso a qualquer coisa do outro lado e o medo bateu mais uma vez.
- Vocês têm certeza de que querem fazer isso? - perguntou Aline. - Ainda está em tempo de voltar.
- De jeito nenhum! - afirmou Roberto. - Já que estamos aqui, vamos até o fim. Me empresta o lampião, deixa eu tentar iluminar lá dentro.
Depois que Roberto tomou posse do lampião, estendeu o braço lentamente em direção do buraco. O movimento foi tão lento que seus primos trincaram os dentes de tensão. Aline estava grudada no braço de Roberto e Nando se agarrava ao da prima.
- Não dá para ver nada... - comentou Roberto.
- Como não? - perguntaram os primos em coro.
- Sei lá. Dêem uma olhada aqui - disse, e esticou o braço mais para dentro do buraco.
A escuridão era tamanha depois da parede que nem mesmo a luz do lampião conseguia iluminar. Aquilo era estranho, mas eles sabiam que o instrumento que usavam não era o mais indicado.
- Se eu soubesse teria trazido uma lanterna - disse Aline. - Para iluminar isso aí só uma luz direta.
- O que vamos fazer agora? - indagou Roberto.
- Alguém vai ter que entrar lá e iluminar direito - rebateu Aline imediatamente.
- Eu não entro aí só - respondeu Roberto na mesma velocidade.
- Nem eu - Nando apressou-se em dizer quando viu os amigos olhando para ele. - Vamos fazer assim, nosso bisa pediu que nós entrássemos aqui, então, vamos os três de uma vez só. Certo?!
Ninguém gostou muito da idéia, muito pelo contrário. Um incômodo desceu a espinha e se alojou na base do estômago só de pensar na idéia de pular aquele buraco e ir para o outro lado.
- Essa parede foi construída aqui por algum motivo... - observou Aline.
- E esse buraco também foi feito nela por alguma razão - rebateu Nando. - Deixem de frescura vocês dois. Vamos. Aline, ilumine aqui que eu vou primeiro.
Antes de ir em direção ao buraco, apoiando o pé nas costas do primo, Nando olhou para Aline e lhe dirigiu a palavra de forma séria.
- Logo depois que eu pular, vocês também pulam! Ouviram? Não ousem me deixar sozinho lá!
Aline apenas acenou positivamente com a cabeça e ergueu a lamparina para iluminar o buraco. Nando se apoiou na parede e subiu nas costas do amigo que já estava agachado. A abertura não estava muito alta, mas necessitava de algum esforço para ser alcançada. Em segundos Nando passou por ela e pediu para que Aline iluminasse mais de perto. Não dava para ver o chão direito.
- Parece ser alto...
- Espera, segura você a lamparina.
Depois de receber o lampião, Nando abaixou o braço o máximo que conseguiu e pôde finalmente ver o chão. O nível era mais baixo que do outro lado, no porão, mas ele poderia chegar lá sem grandes problemas. Saltou depois de proteger o lampião com os braços, sacudiu a poeira da roupa e olhou para cima. A abertura ficava a cerca de dois metros do chão.
- Tudo bem... - disse Nando, que se assustou com o eco. - Podem descer. Eu ajudo vocês!
Nando não quis olhar para trás, mesmo depois do eco. Ele preferiu erguer o lampião para iluminar o buraco e esperar os amigos. Longos segundos se passaram e seu receio de que eles desistiriam aumentou. A sensação de estar ali sozinho era horrível. A escuridão as suas costas o fazia imaginar mil coisas. Como se algo pudesse aparecer correndo de repente. Sons imaginários começaram a ecoar onde estava e um frio sepulcral lhe correu as costelas. Suas pernas voltaram a tremer e ele resmungou para os primos.
- O que vocês estão esperando?!
Nenhuma resposta. Mais alguns segundos se passaram até que Aline enfiasse a cabeça pela abertura em um movimento rápido.
- Bu!
- Não tem graça nenhuma!
Ela sorriu alegremente e o gesto até quebraria aquela tensão, se não fosse o eco. As gargalhadas de Aline ecoaram repetidas vezes na escuridão, como a risadinha de uma criança atrevida. Nas últimas repetições, nem mais parecia que tinha sido ela a sorrir. A expressão dos dois ficou séria novamente.
- Anda logo Aline! Desce, eu te ajudo.
Escorregando pela parede, Aline desceu com a ajuda de Nando. Assim como o primo, resolveu não olhar muito para trás. Esperaria Roberto. Este desceu logo em seguida, sem muitas dificuldades. Era o mais alto dos três e pular aquele buraco era fichinha.
Foi Aline que assumiu novamente o posto de portadora do lampião. Conhecia os primos e não queria dar sopa para que algum deles sumisse com a luz e a assustasse. Todos viraram ao mesmo tempo e colaram suas costas na parede fria. Era incrível, mas ainda não dava para ver nada. A chama do lampião iluminava apenas um raio de dois, no máximo três metros e ali, por enquanto, havia apenas escuridão.
- Será possível que esse porão é tão grande assim? - questionou Roberto.
- Não estamos vendo nada, - disse Nando - pode ser que ele seja pequeno e termine logo ali.
- Não escutou o eco? - apontou Aline. - Isso aqui deve ser enorme. Nosso bisa falava muito dos túneis que cavaram embaixo de Abadia dos Dourados.
- A caça aos diamantes! - mencionou Nando.
- É. Parece que o bisa também fez o seu túnel.
- O que faremos agora? - sussurrou Aline. Não me diga que...
Roberto não deixou ela continuar. Rapidamente pegou seu braço e seguiu em frente. - Vamos logo. Já que estamos na chuva...
Os três caminharam cuidadosamente, passo atrás de passo. A respiração estava tão ofegante que podia ser ouvida por eles. E assim continuaram por longos metros. Tanto que já estavam se perguntando quando iriam encontrar alguma coisa.

De repente, uma voz surgiu na escuridão, potente como um estrondo.
- Fiquem onde estão! Se querem continuar adiante, terão de me responder se estão dispostos a me dar o que vocês têm de mais importante...
Os primos se agarraram uns aos outros, tremendo. Aline enfiou o rosto no ombro de Nando e este, segundos depois, notou que havia algo de errado. A voz que ouviram não produziu eco algum...


continua...


contado por Luciano Marques , às 8:16 PM


Sábado, Março 26, 2005 :::

A Passagem

Capítulo 2



Nando, Aline e Roberto estavam nos fundos da cozinha. O cômodo era escuro e estranho, bem diferente do similar de qualquer casa. Não havia janelas e a fuligem cobria as paredes de ponta a ponta. Parados, quase como se não soubessem o que fazer, estavam na frente de uma porta enorme de madeira, cercada por uma armação de pedras muito antigas. Havia um cadeado negro, muito velho, que impedia a entrada. A chave, antes pendurada no pescoço de Tio Dorino, estava nas mãos de Nando.
- Gente, o que eu faço com isso?
Roberto e Aline apenas olharam para o primo. Ele segurava a chave na palma aberta e olhava fixamente para a porta. Os três sempre quiseram saber o que tinha ali dentro, mas, agora que estavam prestes a entrar, sentiram um certo receio. O lugar estava completamente silencioso e a aparência da entrada não era nada agradável. Mas fora um pedido do bisavô e não dariam para trás naquele momento.
- O bisa não deveria estar aqui? - questionou Aline.
- Garanto que era o que ele mais queria - comentou Roberto. - O problema é que ele está agarrado àquela cama e não pode sair. Acho que ele está com medo de morrer sem saber muito bem o que encontrou.
- Incrível que esses anos todos ele não tenha descoberto. Pensávamos que ele estava era guardando o que tinha achado...
- É por isso que ele fez esse mistério todo em cima dessa porta.
Nando, que estava quieto com a chave na mão, finalmente despertou de sua letargia. - Vamos passar por essa porta logo?
Seus primos prenderam a respiração e concordaram silenciosamente. Nando, lentamente, enfiou a chave no enorme cadeado e girou até ouvir o clique. O barulho, embora pequeno, ecoou na cozinha, dando um pequeno arrepio nas espinhas dos presentes.
Após tirar o cadeado do trinco, Nando abriu o enorme ferrolho, olhou para os amigos e começou a abrir a porta. Eles já previam que o rangido seria longo e assustador, mas não contavam que ele seria tão alto e desesperador, uma vez que o mesmo ecoou para dentro do corredor que dava acesso ao porão. Aline, que estava trincando os dentes, deu meia volta.
- Não entro aí nem a pau!
Roberto segurou-a pelo braço, fazendo-a tremer ainda mais.
- Line?! Não pode fazer isso! Vai desistir agora? Justo quando vamos saber o que tem lá dentro?
- Vocês vão, depois me contam.
- Foi o bisa que pediu, lembra? Ele quer que nós três façamos isso.
A garota respirou fundo. Depois olhou alternadamente para Roberto e para o corredor escuro. Para Roberto e para o corredor escuro.
- Tá certo... eu vou.
Roberto sorriu e a abraçou. - Quer segurar isso? - disse entregando-lhe o lampião aceso.
Tentando se apresentar mais confiante que segundos atrás, Aline tomou a frente e desceu dois degraus antes de olhar para trás e esperar os primos. Os dois desceram em seguida e Nando fechou a porta. O mesmo rangido surgiu, mais alto, mais aterrador.
- Tem certeza de que vai fazer isso? - perguntou Aline ao ver Nando colocando o cadeado na porta pelo lado de dentro.
- Foi o que o bisa pediu, para que trancássemos a porta por dentro, com o mesmo cadeado.
- Eu sei que ele pediu... mas acha mesmo necessário?
Nando hesitou por alguns segundos e resolveu largar o cadeado aberto. - Vamos fazer assim, deixamos ele entreaberto, mas no ferrolho. Tudo bem?
Seus primos concordaram e todos se prepararam para descer. Como nenhum deles falou nada, os passos foram dados em silêncio. Cada um com seu próprio pensamento, cada um ouvindo sua própria respiração.
Aline ergueu o máximo que pôde o lampião a fim de iluminar o caminho. Os degraus levavam ao porão que jamais tinham visto, mas ele parecia estar mais longe que nunca. A descida parecia durar uma eternidade e ela teve aquele estranho medo, aquele que todos têm quando estão entrando em um lugar desconhecido e escuro. O frio lhe percorreu a espinha e teve a sensação de que alguma coisa lhe agarraria o ombro ou o pescoço a qualquer momento. Ela sabia que não deveria pensar isso, pois monstros não existiam. No entanto, a cada passo, ela imaginava que estava cada vez mais longe da porta e que se a coisa surgisse da parte escura e lhe agarrasse não teria tempo de voltar. Engoliu seco. Respirou fundo. Era um pedido do bisa, era um pedido do bisa, repetia para si mesma diversas vezes.
Depois de alguns segundos de uma descida lenta e penosa, os três chegaram ao fim da escala. Eles se perfilaram e Aline ergueu o braço para iluminar o recinto. Era um lugar pequeno, empoeirado e assustadoramente silencioso. Mas não foi isso que chamou a atenção.
- Está vazio! - exclamou Nando.
- Não pode ser, o bisa não nos mandaria aqui para ver um porão vazio - indignou-se Roberto.
- Esperem! - alertou Aline, apontando algo. - O que é aquilo?


continua...


contado por Luciano Marques , às 1:51 AM


Quarta-feira, Março 23, 2005 :::

A Passagem

Capítulo 1

Meu nome é Fernando, mas me chamam de Nando desde que me entendo por gente, e venho aqui contrariar as notícias dos jornais. Na verdade, venho contrariar o motivo da morte de meu bisavô, noticiada pelos veículos de comunicação como acidental. Se eles soubessem da missa um terço...
O que tenho a contar é tão incrível, tão inacreditável, que o relato em um formato diferenciado, referindo a mim mesmo em terceira pessoa. As outras pessoas importantes são meus primos Aline e Roberto. Vou chamar essa história de A Passagem.

Eu sei que na hora do fogo ele não estava lá... eu sei que ele criou coragem...




Dorino era um velho solitário e, mesmo possuindo uma família enorme, mal saia de casa ou recebia visitas. Chegou à cidade mineira Abadia dos Dourados quando ainda era um adolescente e jamais saíra de lá. Principalmente depois de ter construído sua própria residência.
A economia de Abadia dos Dourados vive principalmente da agropecuária e da indústria de cerâmica, mas seu subsolo guarda algumas das maiores jazidas de diamantes da região. Uma boa parte dos 6.422 habitantes se mudou para lá por causa delas. Com Dorino não foi diferente. Aliás, ele fez ainda mais que adotar a cidade... ele construiu sua casa em cima da escavação que começou na década de cinqüenta. Foi quando ele se isolou.
Aline, Roberto e Nando, os únicos bisnetos que tinham o privilégio de visitá-lo vez ou outra, estavam se perguntando o que tanto Tio Dorino - era chamado assim pelos íntimos - tinha de urgente para conversar com eles. Receberam o telefonema e se apressaram para chegar à rua Paranavaí. No caminho eles levantaram a hipótese de que o velho finalmente os deixaria ver o que havia no tão misterioso porão daquela casa, mas, mesmo esperançosos, sabiam que o bisa não deixava ninguém chegar nem perto daquela porta. A mesma era trancada com um enorme cadeado e muitas eram as especulações sobre o assunto. Seria uma enorme quantidade de diamantes brutos que encontrou quando escavava? Um tesou desenterrado por acidente? Ou uma tumba não encontrada pelos arqueólogos? Não sabiam. Aline, no auge dos seus quinze anos (Roberto e Nando tinham um ano a menos), já tinha se cansado de criar hipóteses.
Os três entraram na velha casa pela porta da frente. Sempre estava aberta. A moradia de Tio Dorino era enorme, de dois andares, e inteiramente construída com madeira nobre. A aparência, porém, não era das melhores. O tempo e a falta de manutenção a deixara mais parecida com uma casa mal assombrada.
Ele estava deitado em sua cama, local obrigatório nos últimos meses. Os cigarros trouxeram o câncer mais rápido que ele desejava. Um discreto tubo transparente ligava um cilindro de oxigênio as suas narinas e causavam um som tão estranho quanto a sua aparência. Dorino estava magro, fraco e aparentava lutar com todas as forças pelos meses que lhe restavam.
- Olá, crianças - disse o velho com uma voz fraca.
- A bênção, bisa - cumprimentaram os três ao mesmo tempo.
Dorino fez apenas um leve sinal com a cabeça e respirou fundo. Isso arrancou uma expressão de pena dos jovens. A família não ligava muito para ele, mas Aline, Roberto e Nando tinham se apegado bastante nos últimos anos. Adoravam suas histórias e estavam com medo de perdê-las. Tinham pânico só de pensar que o querido bisa estaria a sete palmos do chão em pouquíssimo tempo.
- Não se preocupem, garotos, eu estou me agüentando. E vocês, como estão?
- Estamos bem, vô. O que o médico disse ontem? - indagou Nando.
- O mesmo de sempre. Aquele canalha não troca o disco - disse e depois tossiu por longos vinte segundos.
- Vô, precisa de algo? - perguntou Aline, preocupada.
- De um novo pulmão - sorriu o velho. - Vamos, sentem-se. Devem estar ansiosos depois de meu telefonema.
Os bisnetos não responderam com palavras, mas sentaram tão rápido que ele pôde supor o quanto estavam curiosos. Aquela definitivamente não era uma atitude de Dorino.
- Não tem nada a ver com a sua doença, né vô? - disse Roberto, que sentara em um velho sofá coberto por uma colcha de retalhos.
- Com certeza não. Vai demorar muito para ela me derrubar. O motivo para ter chamado vocês aqui é outro.
Enquanto os jovens aguardavam atenciosamente as palavras de seu bisavô, Dorino falava pausadamente e sorria de forma maquiavélica. Parecia curtir a tensão que seu suspense causava.
- Preciso que me façam um grande favor...
- Claro,vô - Aline apressou-se em dizer. - O que o senhor precisar.
- Preciso que peguem essa chave aqui - apontou o objeto pendurado em seu pescoço - e que abram o cadeado.
- Aquele cadeado? - surpreendeu-se Roberto.
- Sim, filho, aquele cadeado. Estou no fim dos meus dias... preciso que desçam, no porão, e que depois retornem para me dizer o que tem lá...
- Mas o senhor sabe o que tem no porão! - afirmou Nando sem entender.
- Sim, eu sei Fernando. Mas não é lá que eu quero que entrem. Quero que vão mais além... quero que sigam pela passagem...
Os três ficaram sem palavras. Não só estavam aturdidos por terem tido a permissão de entrar no porão, como também estavam também estupefatos com aquele mistério. Havia uma passagem. Para onde? Parece que descobririam em breve.


continua...


contado por Luciano Marques , às 3:55 AM


História da vez: A PASSAGEM!